Era tarde, bastante tarde, quando Mariana chegou a casa. Os pais, preocupados, continuavam na sala a ver televisão para que o tempo passasse mais depressa. A Mariana tinha perdido a noção do tempo enquanto fazia um trabalho de grupo com os colegas da Faculdade. Estava sem jantar e aflitinha para ir à casa de banho – coisas banais que a muitos já tocaram.
- Anda comer uma sopa de espinafres que fiz para o jantar – pelo menos come a sopa, rapariga.
- Já vou, mãe.
- Almoçaste alguma coisa de jeito?
- Comida de cantina…. Achas, mãe?
- A sopa ainda está quente e sobrou coelho assado no forno. Queres um quarto com batatas assadas?
- Estou cá com uma larica que nem vejo a direito. Quero de tudo um pouco, mãe.
- Esta juventude põe-se nos estudos e até se esquece de comer.
- Ainda bem que a nossa Mariana é aplicada. Olha lá mulher: querias que fosse uma estouvada como outras que bem sabemos? Dá graças a Deus por ser uma rapariga atinada do juízo e aplicada nos estudos. Queres que te fale da nossa vizinha Celina, que anda há seis anos na Faculdade para fazer a licenciatura? Pobres pais que lhe pagam os estudos, enchem-na de mimos e ela só quer borga.
- Pronto, pronto, já estou em casa sã e salva.
- Sã e salva?! O que queres dizer com isso? - questionava o pai.
- Estou a falar da insegurança que se faz sentir mais à noite.
Os pais, de repente, fixaram o olhar na filha à espera das novidades.
- A cidade está cheia de estrangeiros e alguns não são boas peças. Soube que se apanham uma rapariga sozinha podem fazer-lhe mal.
- Valha-me Nossa Senhora ao que isto chegou!
- Vieste sozinha ou com os teus colegas? – perguntou o pai.
- Vim com o Daniel, o Sousa e a Guida. Deixaram-me à porta e foram embora.
- Fizeste bem.
- Vieram trazer-me de carro. A Guida tem carro.
- Mas diz lá o que sabes sobre os tais estrangeiros?
- Não são colegas da Faculdade, são imigrantes que vieram para cá e andam por aí a meter-se com as raparigas. Soube que já violaram uma colega da Faculdade.
- Ó António: isto é muito grave. Temos de fazer alguma coisa.
- Não passa de amanhã.
- O que é que o pai vai fazer?
- Vou-te esperar à porta da Faculdade.
- Por acaso a mãe do Henrique também faz isso. Tem uma carrinha de sete lugares e depois dá boleia à malta toda.
- A partir de agora vou-te buscar. Combinamos a hora e lá estou eu.
- E eu também vou. – dizia a dona Deolinda, cheia de receios pela sua única filha.
- A rapariga é tua amiga, ou conhecida, ou… - indagava saber mais pormenores o senhor António.
- Por acaso é minha colega de curso. Anda no primeiro ano.
- E apresentou queixa na Polícia?
- Foi logo no hospital. Os médicos que a assistiram chamaram a Polícia.
- E o malandro já foi apanhado? – perguntava a mãe Deolinda.
- Foi numa rua escura, mas a rapariga conseguiu fixar as feições. Depois fez um relato e um senhor desenhou o rosto dele.
- Espero que o apanhem e vá para a cadeia.
- Ó homem: a esta hora já fugiu para outra cidade. Achas que ficou à espera de que o fossem prender?
- É no que dá abrir escancaradamente as portas à imigração.
- E o coelho está bom?
- Com a fome que trago, qualquer coisa serve. Está bom, sim, mãe.
- Come, come, que estás um pau de virar tripas.
Riram da expressão e do consolo com que viam a filha comer.
Foram para a sala, mais um pouco, e depois deitaram-se. Essa noite não foi muito bem dormida. Ficaram a remoer na situação da violação.
No dia seguinte a Mariana passou a ter motorista que a ia buscar à hora combinada. O problema era sair à noite com as amigas. Beber mais um copo podia ser fatal.
Enquanto pairou o medo e a insegurança, os jovens passaram a conviver nas casas de uns e dos outros. Nada de bares e muito menos certos bares onde as drogas se passam como pacotes de açúcar para cafés.
Um advogado amigo da família, que por acaso se cruzou com eles na ourivesaria da Maria Ivone, relatou ao casal que esse caso de violação não era único, havia mais em tribunal.
Aqui para nós que ninguém nos ouve: os pais da Mariana ficaram para morrer.