As ruas da aldeia de Bemposta, no concelho de Mogadouro, foram hoje invadidas por uma cortejo de mais 700 figuras representativas de rituais ancestrais europeus, numa manifestação cultural característica das festas solsticiais e carnavalescas de vários povos.
As máscaras e mascarados fazem parte da identidade cultural de povos de norte a sul da Península Ibérica, e de países como Bulgária, Roménia, Itália que hoje reuniram representantes na Bemposta, trazendo testemunhos das suas localidades de origem e desses rituais que podem abordar temas desde a fertilidade à morte, das tradições rurais à censura social, através das 'tropelias' de figuras espampanantes e por vezes misteriosas.
O Encontro de Rituais Ancestrais, que hoje decorreu na aldeia de Bemposta, no distrito de Bragança, é um evento eminentemente cultural, de origem rural, revelador de marcas que a história e a tradição deixaram nas terras e nas pessoas que as habitam, em muitos e distintos espaços europeus.
À passagem destes mascarados ninguém ficou indiferente e cada um, à sua maneira, procurou interagir, fosse com uma ‘selfie’, uma fotografia mais elaborada ou com um registo para as redes sociais. O mais importante é manter viva a cultura dos povos. E, no caso destas tradições milenares que teimam em manter a sua pureza, sem alterar rituais nem os confundir entre si, dadas os seus diferentes significados.
Manuel Traviesso é o porta-estandarte dos mascarados de Tremor de Arriba, uma pequena aldeia do município espanhol de Igüeña, na província de Leão. Disse à agência Lusa este encontro de rituais ancestrais é ideal para dar a conhecer as tradições, por se tratar de um localidade transfronteiriça, com uma identidade muito própria no que respeita a tradições dos mascarados.
“Todos estes rituais têm muita história e aqui pudemos partilhar todas as nossas vivências e tradições e conhecer outros de vários pontos de Portugal e Espanha e da Europa, porque descobrimos que em muitos casos há raízes comuns", vincou este mascarado que representa as celebrações carnavalescas do seu povo.
Por seu lado, Ana Maria Martins, uma das represente da Associação do Velho de Vale de Porco, no concelho de Mogadouro, explicou que estes rituais, com os seus mascarados, estão vivos, sendo este tipo de iniciativa muito importante divulgar as tradições
“Este encontro de rituais é importante para dar a conhecer as figuras de mascarados", afirmou, acrescentando no entanto não ser este "o melhor local" para dar a conhecer os rituais. "Estes rituais têm que ser vistos nos seus locais de origem, com todas místicas que os envolve”, defendeu.
Já Torino Marras, vindo da Sardenha, represente dos mascarados desta região de Itália, disse que as origens do seu ritual remetem para o sacrifício humano, visando melhores culturas, tratando-se de uma tradição ancestral ligada às colheitas agrícolas e à pastorícia de inverno da sua região.
O representante do Grupo dos Caretos de Salsas, José da Fonte, frisou que começam a aparecer jovens que mostram interesse em aderir aos grupos de mascarados, para não deixar perder a tradição, chegando mesmo a pagar, por vezes, para vestir o fato dos mascarados.
“As pessoas começam a ter vaidade em vestir a máscara, situação que não acontecia antes da pandemia de covid 19", afirmou. "As pessoas que estão associadas às tradições raianas do distrito de Bragança e do outro lado da fronteira", na linha de Zamora a Ourense, fazem parte de um "território onde há afinidades nestes rituais, presentes aqui em Bemposta”.
O investigador Roberto Afonso, um dos mais destacados a nível nacional destas tradições ancestrais, explicou que estes encontros constituem "uma forma eficaz de promoção deste tipo de festas ligadas ao Solstício de Inverno e ao Carnaval", advertindo "que se deve ter o cuidado de não se confundir os rituais uns com os outros e máscaras umas com as outras".
“Este encontro de rituais está bem organizado já que cada grupo está identificado com uma placa que diz quem são e de onde vêm”, observou.
O investigador descreveu ainda que o encontro de rituais de Bemposta já assumiu um caráter internacional nestas tradições dos mascarados, dado o número de grupos presentes.
Por seu lado, o presidente da Câmara de Mogadouro, António Pimentel, anunciou hoje a criação de um grupo trabalho que visa a classificação dos rituais solsticiais do concelho de Mogadouro, e uma futura candidatura à sua inscrição no Património Imaterial da UNESCO.
“Nós, quando lançamos um repto, é porque de certo modo já foi abraçado. Já estamos a trabalhar na contratualização de um grupo de trabalho que nos apoie na recolha do património e da sua história e tudo o que seja necessário para fundamentar esta candidatura. É trabalho difícil, mas ficará feito para quem vier dirigir os destinos da autarquia de Mogadouro”, disse o autarca, numa referência às próximas eleições autárquicas, a realizar este ano.
A presidente da Maschocalheiro – Associação de Bemposta, Amélia Folgado, garantiu à Lusa que o Encontro de Rituais Ancestrais é para continuar, e a cada ano com mais participantes, por ser uma iniciativa que já marca o panorama europeu das máscaras ancestrais.
*** Francisco Pinto (texto) da agência Lusa *** e foto de Alfredo Cameirão